Coordenadoria de Comunicação Social

Universidade Federal de Pelotas

A Questão Chipre e a linha verde são temas de Mostra de Arte na UFPel

7 de Dezembro de 2010

chipre.jpg“Uma Linha Verde” é o nome da primeira exibição individual da artista plástica Evanthia Tselika no Brasil. Organizado pelo Instituto de Artes e Design (IAD/UFPel), através do professor Mario Maia, e com colaboração da artista plástica Francisca Silva, a mostra traz a Pelotas uma série de imagens fotográficas do Chipre realizadas pela artista grego-cipriota Evanthia Tselika. A pesquisa visual apresenta a capital do país, a cidade dividida de Nicosia, com representações do cotidiano concreto do lugar segregado, além de imagens históricas cedidas pelo governo e museus cipriotas. O trabalho ficará exposto entre os dias 8 e 15 de dezembro no hall do IAD, 2º andar, rua Alberto Rosa,62.

Em agosto do ano passado, Evanthia cruzou pela primeira vez o muro que divide Nicosia, Lefkosia, ou Lefkosha (a cidade tem três nomes), capital do Chipre, entre norte e sul. “Cruzei para tirar fotos no lado norte. E aí percebi que é o ato de cruzar que realmente me afeta, o caminhar ató o ponto de check-in, o mostrar o passaporte. Senti-me estranha por um tempo, mas logo me acostumei”, relata a artista.

Evanthia é parte da geração dos filhos de refugiados que enfrenta, ou reconstrói, a chamada “Questão Chipre”. A pequena ilha encravada no mar Egeu, de milenar existência e influência cultural predominantemente helenística, é presente nos debates da política internacional devido a um antigo conflito étnico entre cristãos ortodoxos (gregos) e muçulmanos (turcos) que remonta à queda do império Otomano. Uma história que perpassa as origens de toda a civilização ocidental, um lugar que se caracteriza como eterno ponto de encontro de culturas, desde os Fenícios da Antiguidade até os contemporâneos britânicos.

O Brasil pouco sabe sobre o Chipre – essa diminuta ilha, que na mitologia clássica grega é o lugar de nascimento da deusa Afrodite – mas desde 1974 esse território, que ao longo dos séculos foi espaço de disputa de civilizações, entrou para a lista das grandes dores de cabeça da ONU e tornou-se um exemplo da capacidade de segregação humana.

Em pleno século 21, quando se celebram 20 anos da queda do muro de Berlim, quando a União Europeia – da qual o Chipre faz parte – aumenta cada vez mais suas políticas de integração, o Chipre permanece como o país com a única capital dividida da Europa. A chamada “Green Line (linha verde) tem 180 quilômetros e é como se conhece a Buffer Zone das Nações Unidas no país. Formada por barricadas, muros e arame farpado, corta o país de uma ponta a outra dividindo as duas comunidades, grega e turca, e é a representação física de intolerância e de muita dor e perda dos dois lados.

Os pais de Evanthia são refugiados. Moravam na parte norte do Chipre quando houve a invasão turca em 1974 e, como outros milhares, foram expulsos apenas com a roupa do corpo, das suas casas, terras, trabalhos, famílias. Viraram refugiados dentro da sua própria nação dentro das operações de limpeza étnica que segregou o país, e depois de um período como imigrantes na Grécia e na Inglaterra, instalaram-se na parte sul de Nicosia. Milhares de famílias perderam tudo, centenas morreram ou desapareceram e hoje a parte norte do país é chamada “República Turca do Chipre do Norte”, sendo reconhecido apenas pela Turquia e rechaçado diversas vezes pela ONU que considera a situação uma aberração política. <

A questão permanece. Até 2003 a população do país não tinha permissão de cruzar para o outro lado, mas nesse ano se abriu um ponto de controle que permite a passagem, desde que se mostre o passaporte. Há quem pense que a situação é irreversível e o país está condenado à divisão. Outros ainda defendem uma solução integradora e buscam unificar o estado.

Nicosia (em alfabeto latino), Lefkosia (em grego) ou Lefkosha (em turco) é a cidade vendida para turistas como “a única capital dividida da União Europeia”. A propaganda política, o impacto visual de uma cidade dividida física e concretamente, os rancores, as memórias de humilhações, são elementos cotidianos de um contexto difícil de imaginar para percepções ocidentais, e tropicais. São também aspectos de altíssima influencia ou enraizados na produção artística local, que cada vez mais dialoga com o resto do mundo.

Serviço:

“Uma Linha Verde”

- Exposição fotográfica sobre o Chipre, por Evanthia Tselika.

A artista plástica grego-cipriota Evanthia Tselika tem 27 anos e é doutoranda em Arte Social e Multiculturalismo em contextos pós-conflitos na Birbeck College (University of London). Trabalhou e participou de mostras de arte individuais e coletivas em galerias e museus na Inglaterra, El Salvador, Grécia, Chipre e Brasil.

Local: Hall do IAD, 2ª andar, Rua Alberto Rosa,62, Pelotas-Rio Grande do Sul

De 8 a 15/12/2010

Seção: Notícias